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Cérebro à procura da alma

Cérebro à procura da alma
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De Antônio Damásio – neurociência

Para  o neurocientista português, atualmente radicado nos E.U.A. Prof. Dr. Antônio Damásio, a razão pura não existe: “nós pensamos com o nosso corpo e nossas emoções”.  

Este cientista continua dizendo: “os fenômenos mentais  se integram verdadeiramente ao corpo tais como  eu os visualizo, são capazes de dar lugar às mais altas operações, como aquelas que revelam a alma e o nível espiritual. Sob meu ponto de vista, não obstante, todo o respeito que devemos concordar em noção da alma,  podemos dizer que por último esta reflete somente um estado particular e complexo do  organismo”.

Antônio Damásio (à direita) e sua esposa Hanna (à esquerda) sendo homenageados pela Câmara Municipal da cidade do Porto/Portugal 

Estas afirmações do pesquisador cientista Antônio Damásio, diretor do departamento de neurologia da Universidade de Iowa (Estados Unidos) e professor no Instituto Salk para estudos biológicos (Jolla, Califórnia), reúnem diretamente as preocupações atuais da pesquisa em seu domínio, quando tenta após anos descobrir os mistérios da consciência e das faculdades mentais superiores, a fim de, talvez, melhor discernir sobre as noções ambíguas do espírito ou da alma.

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Por mais áridas que possam parecer suas pesquisas, Antônio Damásio ama “ferozmente” a vida, que ele degusta a cada instante com um prazer consumado. Baixo, olhos e cabelos castanhos, sempre impecavelmente penteados se mostra assim, aquele que é considerado um dos maiores mestres sobre o estudo do cérebro humano. Também calmo, apaziguador, ele é certamente capaz de falar durante  horas sobre a neuroconsciência, como também de arquitetura, arte moderna,  cinema, história, filosofia e até mesmo de gastronomia. 

A Cartografia do Pensamento

Graças às novas tecnologias medicas criadas, Damásio pôde montar a cartografia do pensamento.

Antônio Damásio e sua mulher Hanna (que trabalha com ele, divide as mesmas paixões e a quem ele deve uma boa parte de seu sucesso) nasceram em Portugal, e obtiveram seus diplomas na faculdade de medicina da Universidade de Lisboa. Após terminarem suas teses, partiram para os Estados Unidos. “Há vinte anos, explicam  eles, pudemos neste País fazer as nossas pesquisas”.  

Já nos Estados Unidos a primeira etapa de suas pesquisas (em 1967) foi no laboratório do grande neurologista Norman Geschwind, centro de pesquisa em Boston, sobre afasia (perda do poder de expressão pela fala, pela escrita ou pela sinalização por lesão cerebral, sem alteração dos órgãos vocais). Com a morte de Geschwind, em 1984, o casal parte para Iowa, sobretudo porque naquele estado rural existem excelentes escolas, bons hospitais e “as pessoas pensam que é normal ajudar a pesquisa médica.” A neuroanatomista Hanna (sua esposa) refletindo sobre o comportamento do “ego”, imagina e constrói a maior parte das experiências.  Ela foi notavelmente uma das primeiras a criar e utilizar de tecnologias no cérebro, para estudá-lo em relação às funções cognitivas.

Cartografia do cérebro.

 Em 1992, Antônio e Hanna receberam o prêmio Pessoa, a mais alta distinção intelectual de Portugal, pela sua contribuição à cartografia do cérebro. A presença de Hanna, longe das grandes mecas das pesquisas americanas, representou  um papel determinante na carreira de seu marido. No coração de Midwest, um imenso  Hospital da Universidade de Iowa, ali no departamento de neuropsicologia, ela pôde junto a Damásio estudar múltiplos e fascinantes casos, quando os dois reuniram mais de 2.000 casos de doenças em função de problemas como ataques, infecções, traumatismos, tumores e outros acidentes cerebrais.

Ali os dois constaram, quando as pessoas “normais” vêem imagens que as despertem forte emoção, sua secreção do suor aumenta, mas se elas possuem certas lesões cerebrais, não há nenhuma resposta epidérmica.

Quando o cérebro é lesado

 

O córtex frontal representa um papel essencial no controle de nossas emoções.  No caso de lesão pode provocar uma mistura da desinibição e da agressividade.

Uma das estruturas cerebrais ligadas às emoções e à tomada de decisões é o córtex pré-frontal ventro-mediano e, neste caso, entre os numerosos estudos efetuados, um dos mais curiosos de todos os anais médicos foi o do jovem Phineas Gage.

Caso de Phineas Gage 

Phineas Gage era um jovem supervisor de construção de ferrovias da Rutland e Burland Railroad, em Vermont, EUA. Em 1848 de setembro, enquanto estava preparando uma carga de pólvora para explodir uma pedra, ele socou uma barra de aço inadvertidamente no buraco. A explosão resultante projetou a barra, com 2.5 cm de diâmetro e mais de um metro de comprimento contra o seu crânio, a alta velocidade. A barra entrou pela bochecha esquerda, destruiu o olho, atravessou a parte frontal do cérebro, e saiu pelo topo do crânio, do outro lado. Gage perdeu a consciência imediatamente e começou a ter convulsões. Porém, ele recuperou a consciência momentos depois, e foi levado ao médico local Jonh Harlow, que o socorreu. Incrivelmente, ele estava falando e podia caminhar. Ele perdeu muito sangue, mas depois de alguns problemas de infecção, ele não só sobreviveu à horrenda lesão, como também se recuperou bem fisicamente, mas sua personalidade foi profundamente afetada.

Ainda o caso de Phineas Gage

 No famoso aforismo de Descartes. “O coração tem razões que própria razão desconhece”, Damásio reformula-o totalmente, dizendo: “o organismo tem certas razões, que a razão deve absolutamente levar em conta”.  

Para estes neuropsicólogos da cidade de Iowa, não existe, portanto razão no estado puro.  Não há corte, entre o corpo e o espírito. O homem é um todo.

No córtex frontal se encontram “as zonas de convergência”

No córtex frontal se encontram “as zonas de convergência” que integram as conexões entre uma determinada situação e os estados do corpo (algumas das múltiplas situações e percepções memorizadas).

As zonas de convergências alimentam os “marcadores somáticos”, um tipo de guia automático que orienta a nossa escolha visando a nossa sobrevivência.

As emoções nos ajudam a pensar certo – esta teoria é uma das maneiras mais originais da neurologia nos últimos anos.  É um aspecto essencial de alto nível de complexidade existente no ser humano, que se põe em relevo nessas pesquisas. Grosso modo significa simplesmente, que nós “pensamos com o nosso corpo”. Que as emoções  são  literalmente “corporalizadas”.   Uma visão da natureza humana que Freud e a psicanálise não desmentirão sem dúvida. 

Antônio Damásio explica, que a pessoa quando é confrontada a escolher, o que se passa em sua cabeça é um tipo de análise de custos  e benefícios. Ela olha todas as opiniões, calculando se fizer assim ou assado (utilizando-se deste único método), mesmo para tomar esta simples decisão, existem tantas possibilidades,  tantos resultados intermediários, que para decidir se aceita, por exemplo, jantar à noite convidada por alguém, pode ser que seja necessário pelo menos uma hora para responder, ou, provavelmente responder com um sim ou com um não em alguns instantes.  Por quê?”.  

Penso que nós somos talvez ajudados pelas emoções, responde o neuropsicólogo. Se no decorrer de nossa vida temos de aprender o que é bom ou não para nós, seria apropriado, hoje e no futuro,  desenvolvermos um tipo de guia automático.  Eu chamei este mecanismo de marcador somático.  É ele que ajuda a eliminar as opções piores, ou que, ao contrário, pode levar a uma escolha das conseqüências benéficas. Mas, estes famosos marcadores somáticos não estão de fato situados nos lóbulos frontais. Não se encontram realmente nestas regiões  meios de generalizar os marcadores somáticos, que “os chamo uma zona de convergência”, diz Damásio.  

Este pesquisador-cientista constata conexões entre certos estados do corpo em uma dada situação. Até a zona de convergência ser ativada, uma multidão de ordens parte em direção à amídala, ao tronco cerebral, ao hipotálamo, para criar um estado particular, que se mostra no córtex somato-sensorial.  “E este serve de marcador. É tudo simplesmente o estado que qualifica uma imagem ou uma situação particular”, explica este cientista.  

Após  vários meses então, Damásio tenta mudar sua teoria dos marcadores somáticos, ao estudar a resposta epidérmica às emoções graças aos testes de “condutância cutânea”. O princípio é o mesmo que aquele dos detectores das mensagens: assim, quando contemplamos uma cena que nos afeta, certos elementos do nosso sistema nervoso preparam um aumento da quantidade de suor produzido pela pele, quase imperceptível, mas detectável se passar por uma fraca corrente elétrica.

Damásio trabalha sobre os casos reais e não sobre os modelos animais ou sobre experiências de laboratório. Sua mensagem é clara: “O espírito respira o viés do corpo e o sofrimento tem suas forças no nível da pele ou da imagem mental.

Ele conclui que a percepção de uma determinada emoção depende de certo número de órgãos do corpo, não diminuindo o valor daquela percepção ao ponto de um fenômeno humano. Nem a mágoa e nem o êxtase que podem acompanhar o amor ou a arte, se encontram desvalorizados pelo fato de nós cumprirmos quaisquer dos milhares de processos biológicos que fazem dessas emoções no que são. Mas, também não podemos estar espantados diante da complexidade dos mecanismos que tornam possíveis estes sortilégios. A percepção das emoções é base daquilo que os seres humanos chamam depois de milênios, de alma e de espírito.

Fonte: www.psiquiatriageral.com.br/cerebro/texto1.htm

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